Na noite da última terça-feira (26), o auditório do Tribunal de Contas do Estado de Alagoas foi palco da abertura oficial do Curso de Estudos em Política e Estratégia (CEPE 2025) da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra de Alagoas (ADESG-AL). O evento contou com a presença de autoridades civis e militares, além dos 27 novos estagiários que iniciam a jornada formativa, com conclusão prevista para julho de 2026.
A aula magna foi ministrada pelo economista Sr. Luiz Otávio Gomes, que abordou o tema “O Momento Político-Econômico Brasileiro e seus Reflexos na Economia de Alagoas”, oferecendo uma análise detalhada dos desafios nacionais e das oportunidades regionais.
ABERTURA E MENSAGENS INSTITUCIONAIS

A solenidade foi aberta com mensagem em vídeo do Presidente Nacional da ADESG, Coronel da Aeronáutica Antônio Celente Videira, que destacou a relevância da formação estratégica em um mundo marcado por rápidas transformações.
Segundo ele, “o conhecimento adquirido será fundamental para a condução das melhores decisões em meio a cenários complexos e dinâmicos”.
Celente também enfatizou a importância histórica da retomada da força do Nordeste nos últimos anos, parabenizando a delegacia alagoana e os estagiários pela nova etapa acadêmica.
O Reitor do Centro Universitário Mário Pontes Jucá (UMJ), professor Mário César, ressaltou a parceria consolidada com a ADESG, que garante certificação de pós-graduação lato sensu ao curso. Ele lembrou a trajetória da instituição, desde sua origem como Faculdade de Tecnologia em 2002, até o credenciamento como centro universitário em 2019, hoje com mais de 20 cursos de graduação e pós-graduação, presenciais e EAD.
Já o Delegado da ADESG-Alagoas, Coronel Gerônimo Carlos do Nascimento, destacou a relevância da educação estratégica para o fortalecimento da sociedade. Em seu discurso, relacionou conhecimento e legado como forma de eternidade.
“Nos eternizamos pelo que fazemos de útil à sociedade. O caminho para isso é a preparação. Quanto mais nos qualificamos, mais podemos contribuir com o Estado, com o país e com as futuras gerações”, afirmou.
O delegado também anunciou articulações para trazer novos cursos da Escola Superior de Defesa (ESD) a Alagoas, entre eles os de cooperação e interagências e de gestão de projetos. Além disso, revelou que os estagiários do CEPE 2025 desenvolverão um planejamento estratégico sobre o uso da água do Canal do Sertão para agricultura irrigada, incluindo viagens de estudo ao sertão alagoano e a Petrolina, em Pernambuco, para conhecer experiências bem-sucedidas.
PALESTRA: O CENÁRIO POLÍTICO E ECONÔMICO BRASILEIRO

O conferencista Luiz Otávio Gomes iniciou sua exposição ressaltando a complexidade do tema, que exige compreensão da interação entre política, economia e estabilidade institucional.
Ao abordar a política nacional, destacou que o país ainda sofre com uma polarização extrema, herança direta da eleição de 2022, que mantém a sociedade dividida em dois blocos antagônicos. Essa divisão tem fragilizado a governabilidade e alimentado um clima de confronto permanente. No relacionamento entre Executivo e Legislativo, observou que a fragilidade das coalizões, somada ao excesso de ministérios — atualmente 39 — e à dependência de emendas parlamentares, gera confusão administrativa e dificulta a construção de uma base sólida de apoio ao governo. Em sua avaliação, o Judiciário, em especial o Supremo Tribunal Federal, tem ultrapassado as fronteiras constitucionais, assumindo um protagonismo político que deveria ser limitado. Ainda assim, ressaltou que, apesar das pressões e das crises recorrentes, as instituições democráticas brasileiras seguem resistindo, embora constantemente testadas.
Na análise econômica, o palestrante lembrou que a inflação permanece um problema sensível, ultrapassando metas e sendo considerada por ele o “imposto mais cruel”, já que corrói o poder de compra silenciosamente. O crescimento do Produto Interno Bruto, em média de apenas 2% ao ano nas últimas décadas, foi descrito como um “voo de galinha”, insuficiente para levar o Brasil ao patamar de país desenvolvido. A dívida pública também preocupa: atualmente em 73,8% do PIB, pode chegar a 84% em 2026, o que colocaria em risco a sustentabilidade fiscal, à semelhança de crises enfrentadas por países como Grécia e Portugal. Outro ponto crítico é a taxa de juros, que permanece próxima de 15%, provocando endividamento empresarial e aumento do número de recuperações judiciais. No campo da política externa, o governo busca protagonismo em fóruns como os Brics e defende alternativas ao dólar, mas, segundo Gomes, corre o risco de se expor ao confronto com grandes potências sem considerar o real peso do Brasil no sistema internacional.

Quando trouxe a análise para o cenário estadual, Luiz Otávio ressaltou que Alagoas apresenta uma realidade distinta, marcada por relativa estabilidade política e fiscal. O estado tem direcionado esforços para políticas sociais e para a articulação de grupos locais no cenário nacional. Do ponto de vista econômico, os serviços são o grande motor da economia, representando cerca de 72% do PIB, com destaque para turismo, comércio, hotelaria e prestação de serviços. O PIB estadual está estimado em R$ 95 bilhões para 2025, o que corresponde a uma renda per capita de aproximadamente R$ 30 mil. Tanto a indústria quanto a agropecuária respondem por 14% do PIB, com a indústria registrando um crescimento médio de 2,5% ao ano. Entre os investimentos estratégicos mais relevantes estão os projetos de energia renovável — incluindo solar e gás natural —, a indústria química com destaque para o PVC e o etanol de segunda geração, além do turismo sustentável estruturado em iniciativas como a Costa dos Corais, o Caminho das Águas e o Sertão. Também merecem atenção os avanços em logística e infraestrutura, com obras de duplicação de rodovias, expansão do saneamento básico e implantação de polos de distribuição. No campo social, programas como o Cartão Cria vêm reforçando a rede de proteção ao complementar o Bolsa Família.
Em sua mensagem final, Luiz Otávio Gomes enfatizou que o futuro do Brasil depende da capacidade de superar a polarização política, controlar a dívida pública e retomar o crescimento sustentável. Já em Alagoas, a aposta deve estar na diversificação econômica, no fortalecimento da infraestrutura e na consolidação das políticas sociais. Para ele, “o futuro não se espera, constrói-se. Com estratégia, estabilidade e liderança, podemos transformar os desafios em oportunidades”.


